MEU AMADO BRASIL

Muitas das minhas palestras e aulas recentes foram ligadas ao Brasil, o que levou alguns espectadores a se perguntarem como me tornei tão profundamente envolvido com seu povo, especialmente com a crescente população evangélica. Aqui está, então, o relato do meu atual romance – essa palavra é muito forte? – com um país notável que abrange uma parte enorme do continente sul-americano.

O Brasil é o quinto maior país do mundo, tanto em população quanto em área. De acordo com o WorldoMeter, o Brasil tinha uma população de 213 milhões em 2020. Isso o coloca atrás da China, Índia, Estados Unidos, Indonésia e Paquistão e à frente de todos os outros. Quando palestrei lá em 2016, percebi o quão extenso é o país. Meu avião pousou em Brasília e fiquei com uma jovem família lá. Mas então, fomos de carro até Goiânia para o evento no qual eu faria minhas palestras. Demorou quase três horas para percorrer a distância, mas no mapa isso cobre uma proporção muito pequena da área do país. Pessoas que eu já conhecia de antemão e esperava ver no evento me disseram que era muito longe de suas casas, o que eu dificilmente poderia ter imaginado antes. Mas seria o equivalente a falar em Toronto e esperar ver pessoas de Calgary ou Vancouver aparecerem.

O idioma usado no Brasil é, obviamente, o português, refletindo a história colonial do país. Estudei o idioma de forma independente nos meses que antecederam minha visita. Ainda estou longe de ser fluente, mas posso ler a maior parte do que encontro e posso conversar em um nível rudimentar. Entre os países lusófonos do mundo, o Brasil é de longe o maior, então, se você estiver interessado em aprender português, provavelmente aprenderá a variante brasileira, que tem um som muito diferente dos dialetos europeus. Eu mesmo acho uma delícia escutar o português brasileiro, e aos meus ouvidos soa quase musical.

Por que o Brasil?

Duas coisas despertaram meu fascínio pelo Brasil quando menino. Primeiro, a edição de maio de 1960 da National Geographic trazia uma história que me cativou totalmente: Brasília: Metrópole sob medida. A ideia de alguém planejar e construir uma capital me impressionou profundamente e, logo em seguida, nutri a aspiração de ser arquiteto ou urbanista, algo que abandonei apenas no Ensino Médio. Quando meu avião sobrevoou Brasília em 2016, eu a reconheci imediatamente do ar, tão familiarizado estava com sua forma.

Depois, tem a música. E que música! Poucos anos depois da inauguração de Brasília e da mudança das instituições governamentais do Rio de Janeiro para o novo Distrito Federal, a mania da bossa nova varreu a América do Norte, começando com a música do grande compositor popular Antonio Carlos ("Tom") Jobim (1927 -1994), cujas obras Garota de Ipanema e Vou Te Contar se tornaram canções de sucesso no hemisfério norte. Não devemos esquecer João Gilberto (1931-2019), Astrud Gilberto, Baden Powell (1937-2000), Sergio Mendes, Ary Barroso (1903-1964), Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e tantos mais. Rapidamente me apeguei à música do Brasil e continuei assim quando adulto, tentando tocar pelo menos um pouco dela no violão.

Por meio do Facebook e outras mídias sociais, comecei a fazer conexões com vários cristãos brasileiros por volta de 2010, incluindo Lucas Grassi Freire, um jovem estudante de pós-graduação na Universidade de Exeter, que estava estudando ciência política e compartilhava comigo o interesse pela salmodia métrica. De lá fiz contatos com outros brasileiros, incluindo Guilherme de Carvalho, líder de L'Abri Brasil. Ele leu meu livro e achou que oferecia algo de valor para a comunidade cristã de lá. Por volta de 2013, soube que meu livro, Political Visions and Illusions, seria traduzido para o português, com Lucas Freire fazendo a tradução. No ano seguinte, a Edições Vida Nova, em São Paulo, publicou-o com o título Visões e Ilusões Políticas, em meio a uma acalorada campanha eleitoral para as eleições presidenciais. Fiquei impressionado com a recepção positiva que o livro recebeu. Desde então, ampliei muito meus contatos com o Brasil, cujo povo considero caloroso, afetuoso e hospitaleiro.

Estou especialmente impressionado com o rápido crescimento da comunidade cristã no Brasil. Em 1980, o Brasil tinha cerca de 120 milhões de habitantes, com a população evangélica correspondendo a cerca de 6% do total. O censo de 2010 descobriu que 22,2% de uma população de 195 milhões são agora contados como protestantes evangélicos. Uma pesquisa em 2013 descobriu que os católicos somavam 51% do total, com os evangélicos em 28%. Mesmo assim, o Brasil continua sendo o maior país católico do mundo. Junto com a expansão do evangelicalismo, veio uma sofisticação crescente em questões relacionadas à fé e à vida, como refletido em uma explosão de traduções para o português dos escritos de figuras como Guillaume Groen van Prinsterer, Abraham Kuyper e o filósofo Herman Dooyeweerd, todos os quais considero mentores intelectuais e espirituais.

Cultura Política

Então, por que o Brasil? Por que os brasileiros ficam tão entusiasmados com meus escritos e com outros da mesma tradição? É aqui que devo tocar em um interesse crescente de minha parte que espero um dia se transformar em outro livro – a saber, a conexão entre cultura política e instituições políticas. Os seres humanos são seres culturais, algo que nos diferencia de outras coisas vivas na criação de Deus. Outras criaturas devem se adaptar aos seus ambientes naturais. Os seres humanos adaptam seu ambiente de maneira única às suas necessidades. Eles cultivam o solo, criam gado, constroem cidades, organizam sistemas de transporte, moldam liturgias para adorar a Deus ou aos deuses, criam boa arte – e não tão boa também –, compõem música etc. E o fazem de maneiras surpreendentemente diferentes, dependendo de sua localização geográfica e do lugar no processo histórico. Todas essas obras da engenhosidade humana existem por períodos de tempo mais curtos ou mais longos, os mais duráveis por talvez centenas ou milhares de anos. A tradição desempenha um papel importante aqui, porque a maior parte de nossa vida cotidiana segue padrões estabelecidos por outros que vieram antes de nós. Podemos questionar tradições específicas, mas necessariamente o fazemos em conformidade com outras tradições que moldaram quem somos como pessoas criadas à imagem de Deus.

A cultura política consiste em toda uma série de fenômenos que condicionam nossas vidas como cidadãos de um determinado corpo político. Isso inclui fatores tangíveis como bandeiras e brasões, a forma das câmaras parlamentares e estilos de arquitetura política, juntamente com elementos menos tangíveis, como formas de exercer liderança, atitudes em relação à autoridade, vontade de participar da vida pública, comparecimento dos eleitores, tipos de retórica política, atitudes em relação à competição e cooperação, a prioridade do público sobre os interesses privados, atitudes em relação aos nossos ambientes naturais e sociais, crenças sobre o significado da justiça e, finalmente, quais deuses adoramos. Todos esses fatores são organizados em tipos específicos, permitindo-nos distinguir entre, digamos, britânicos, italianos, espanhóis, indonésios e nigerianos, todos os quais, apesar de sua diversidade interna, obedecem a padrões gerais que outros reconhecem.

Mais especificamente, pode-se dizer que cada um desses tipos culturais apoia uma constituição ou sistema político único que não é facilmente transferível para outro povo ou nação. Por exemplo, a Constituição dos Estados Unidos, com sua configuração distinta de instituições moldadas pelos fundadores do século XVIII, deve muito menos ao suposto gênio desses fundadores do que às tradições de governo representativo que se desenvolveram tanto na Inglaterra quanto nas várias colônias após 1619, quando a primeira assembléia colonial foi estabelecida na Virgínia. Sem essas tradições, o sistema não teria funcionado bem, e uma constituição escrita provavelmente teria permanecido apenas um pedaço de papel. Na verdade, praticamente todos os países que tentaram importar uma república presidencial ao estilo americano, incluindo o Brasil e outros países latino-americanos, acabaram se tornando uma ditadura, pelo menos por um tempo. A Turquia do presidente Recep Tayyip Erdoğan desde 2017 é o mais recente exemplo infeliz desse fenômeno.

À medida que o evangelho chega ao Brasil, um grande número de pessoas está vindo à fé salvadora em Jesus Cristo, aceitando o perdão de seus pecados e sendo capacitado pelo Espírito Santo para viver uma nova vida de serviço a Deus e ao próximo. Para essas pessoas, o Cristo Redentor é mais do que um monumento conhecido no Rio de Janeiro. Ele é o Redentor vivo que os chamou "das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro  2:9). Por meio do Espírito, ele está transformando suas afeições de acordo com sua vontade. À medida que mais e mais brasileiros mergulham na palavra de Deus, encontrando seu próprio lugar na narrativa redentora bíblica, eles começam a ver sua própria vida sob uma luz diferente. Isso, por sua vez, necessariamente começa a influenciar a cultura, incluindo a cultura política.

Não é segredo que a corrupção é endêmica na vida política no Brasil. Muitas figuras políticas proeminentes foram condenadas e enviadas para a prisão nos últimos anos. O brasileiro médio conviveu com essa corrupção por muitas décadas e talvez por muito mais tempo. Mas, à medida que um número cada vez maior de pessoas é chamado para o reino de Deus, elas passam a ver as implicações culturais, sociais e políticas de sua nova fé. Nossa fidelidade ao reino de Deus não é uma propriedade pessoal a ser mantida dentro do domínio privado do prédio da igreja ou dos lares. Como Abraham Kuyper disse, "Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre todos, não diga, Meu!" Acho que isso explica a crescente atenção aos escritos que seguem a tradição de Kuyper e seus herdeiros, incluindo meu próprio Visões e Ilusões Políticas. À medida que mais brasileiros vêm a Cristo e a cultura política muda, muitos esperam que as instituições políticas do país funcionem de forma a servir o público em geral e fazer justiça pública à diversidade de indivíduos e comunidades dentro de sua jurisdição. Isso poderia mover o Brasil de um passado oligárquico para um futuro caracterizado por altos níveis de confiança social e uma cultura cívica conducente à governança constitucional. Esse Brasil pode se tornar uma grande força também no cenário internacional.

Este é um cenário muito otimista? É muito cedo para dizer neste momento. Mas os brasileiros em grande número estão cada vez mais insatisfeitos com as opções políticas atuais. Eles estão prontos para algo novo. Pelo que posso dizer, muitos cristãos brasileiros estão lendo os livros certos, publicados por editoras como Vida Nova e Monergismo. Como a influência de Kuyper diminuiu na Holanda nas últimas seis décadas, seu legado está crescendo no Brasil, e sou extremamente grato por isso. Estou particularmente grato por estar desempenhando um papel na disseminação das riquezas dessa tradição em um país tão maravilhoso. Que Deus abençoe o povo do Brasil!

Todos esses meus esforços requerem tempo e energia consideráveis. Às vezes recebo gratificações da parte daqueles que me convidam para falar, mas não me compensam adequadamente pelo tempo despendido nessas tantas atividades. Se você acredita tão fortemente quanto eu no poder do evangelho para remodelar, não apenas vidas individuais, mas países inteiros como o Brasil, você consideraria apoiar meu trabalho, tanto financeiramente quanto em suas orações? No topo deste blog você encontrará um ícone da Global Scholars Canada. Se clicar nele, você aprenderá como pode contribuir com meu trabalho. Faço parte da Global Scholars desde 2019 e estou entusiasmado com a maneira como Deus está usando esta organização para levar as bênçãos da bolsa de estudos e acadêmicos cristãos para o mundo todo. Meu próprio trabalho está me conectando, não apenas com o Brasil, mas também com Alemanha, Finlândia, Ucrânia, Indonésia e outros lugares. Considere uma contribuição mensal ou única conforme você se sentir guiado. E, por favor, ore para que Deus abençoe meu trabalho. Agradeço antecipadamente.

Tradução por Lucas Vianna e Matheus Thiago Mendonça


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